Mudanças climáticas e falta de neve preocupa montanhistas

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Um estudo realizado pela Associação Suíça de Guias de Montanha com 600 guias aponta que a maior parte dos profissionais que trabalham com o montanhismo nos Alpes se sentem ameaçados ou preocupados com as mudanças climáticas. Eles também declararam que o tempo é o responsável por mudanças no terreno e relevo em que trabalham.

Alpes Suíços após derretimento de parte das geleiras – Foto de Denis Balibouse.

Entre os resultados da pesquisa, 57% dos entrevistados acreditam que o aquecimento global está aumentando os perigos na montanha, com quedas de rochas no topo da lista. Outros 25% acham que as práticas devem ser adaptadas às estações do ano e 11% acreditam que alguns acessos devem se tornar restritos. Menos de 5% disseram que não sentem nenhum efeito.

Comparação da Geleira de Trento – 1891 e 2010 – Foto de Denis Balibouse.

Para Pierre Mathey, secretário geral da associação, “é fato, a montanha está mudando. Você pode ver  que a neve que cobre os glaciares tem um derretimento muito rápido, especialmente nos últimos anos.” Ele também aponta que com as mudanças climáticas  é preciso alterar o caminho para acessar antigas trilhas e escaladas e há muito mais fissuras e obstáculos difíceis de passar.

Brasileiros nos Alpes

O alarmante estado das montanhas foi sentido até mesmo por brasileiros. No ano de 2019, o paranaense Waldemar Niclevicz ficou a quatro cumes de se tornar o primeiro montanhista de nosso país a finalizar a escalada de todos os picos alpinos com mais de quatro mil metros. Na época ele foi impedido por guias de um refúgio de montanha de tentar escalar os Les Droites, Aiguille Verte, Aiguille Rocheuse e Aiguille Du Jardim.

Waldemar Niclevicz na base do Les Droites. Foto Pedro Hauck

:: Derretimento das montanhas impedem Waldemar Niclevicz de finalizar a escalada de todos 4 mil dos Alpes este ano

“É a neve congelada que segura as pedras, quando ela derrete totalmente, as pedras caem sem parar, o dia inteiro, algumas pequenas, outras gigantescas. É o quinto ano consecutivo que os Alpes são acometidos por invernos muito secos e verões extremamente quentes, suas montanhas estão literalmente se desmoronando, tornando o alpinismo algo cada vez mais perigoso.” Disse Niclevicz em seu site.

:: Veja também Como as montanhas são afetadas pelo aquecimento global

Glaciar Mer de Glace na França no começo dos anos 1900. Fonte La France Géographie Illustree.

Mer de Glace em 2019. Foto de Pedro Hauck.

Seca e grandes nevascas

Não é apenas na Europa que as mudanças climáticas são sentidas nas montanhas. Na América do Sul elas também são visíveis e preocupantes. O geógrafo e montanhista há mais de 22 anos, Pedro Hauck, testemunhou essas mudanças pessoalmente. “Há montanhas que não irei repetir mais. Locais por onde antes escalávamos em gelo, se tornou canaletas de rochas soltas, na maior parte muito perigosas”, declara Hauck.

Cume do Cerro Bonete totalmente seco com o Aconcágua ao fundo.

De acordo com o geógrafo, o que está acontecendo não é apenas uma questão de aquecimento, mas sim de mudança de clima. Para ele, o clima é o resultado de uma sucessão de estados de tempo com dias em que faz frio e chove e outros que são secos e quentes. Nos Andes, está mais calor que o normal e isso provoca o derretimento acentuado das geleiras, ao mesmo tempo que por convecção provoca tempestades muito fortes.

Falta de neve nos Andes

Antigamente era comum na região do Aconcágua nevar bastante durante o inverno. Então, essa neve acumulava e só derretia no verão. De fato ainda há neve nos meses mais frios do ano, porém antes mesmo do começo do verão, o calor da primavera já derreteu esta neve. Algumas vezes nem mesmo no inverno ela chega a se acumular. Por isso estações de ski como a de Vallecitos e de Penintentes permanecem fechadas o ano todo.

“Me lembro da primeira vez que fui ao Aconcágua, no ano de 2002, ter encontrado uma enorme ponte de gelo logo no caminho ao primeiro acampamento, Confluencia. Esta ponte não existe mais. Hoje, até mesmo nos acampamentos mais altos, como em Canadá, localizado a cinco mil metros, há dificuldade de acharmos gelo para derreter e assim obter água” relatou Hauck.

Caminho ao Aconcagua sem ponte de gelo em 2020. Pedras marcadas em vermelho ainda estão lá!

Caminho ao Aconcagua com ponte de gelo em 2002. Foto de Pedro Hauck.

Entretanto, não é só na região central dos Andes que há este problema. Da mesma forma, o geógrafo também fala sobre a grande retração de gelo também na Bolívia. “Conheci a região de Sajama na Bolívia pela primeira vez em 2002 e as montanhas eram cobertas de neve. Tenho algumas fotos clássicas em frente aos vulcões Parinacota e Pomerape, fotos estas que se repetiram anos depois, onde podemos ver a retração do gelo. Estes fotos foram tiradas sempre no início do mês de Agosto, no dia 2, que é um feriado por lá. A diferença é gritante”.

Mudanças ambientais na região de Sajama ao longo dos anos nos meses de Agosto. Fotos de Pedro Hauck.

Pequeno Alpamayo na Bolívia. Foto de Pedro Hauck.

Em vermelho a rota Reloj de Areno no Cerro Rincón, Cordón del Plata Argentina), escalada por Pedro Hauck em 2004. Foto de Pedro Hauck.

Rota Reloj de Arena totalmente sem gelo em Janeiro de 2020. Exemplo de rota de escalada que não existe mais. Reparem na quantidade de rochas sobre a geleira, resultado do desprendimento por conta do degelo. Foto de Pedro Hauck.

Falta de gelo não significa falta de nevascas

Ao longo de seus anos escalando e guiando nos Andes, Hauck se recorda de episódios de grandes nevascas. “Com as mudanças climáticas temos um quadro generalizado de derretimento de gelo, mas há também episódios de grandes nevascas”. Afirma o geografo montanhista. “Já vivenciei episódios catastróficos de grandes nevascas, como em 2015, que escapamos por pouco de uma mega tempestade na região da Puna do Atacama no Chile, onde morreu o montanhista indiano Malli Mastan Babu”, completou.

:: Mais montanhistas ficam ilhados após temporal no Atacama

Nesse episódio relatado por Hauck, nevou muito nas montanhas porém toda a neve derreteu em apenas um dia. Isso provocou enchentes que devastaram as cidades abaixo, como Copiapó. “Nesta mesma temporada, no Aconcágua, fizemos uma aproximação com bom tempo e falta de água devido a seca. Mas no fim, acabamos pegando uma enorme tempestade que deixou a paisagem toda branca em horas”, afirmou.

Abrindo estrada à caminho do Copiapó depois de chuvas – Foto Caio Vilela

No entanto estas tormentas muito fortes não são uma solução frente ao problema da falta de acumulo de gelo. Elas caem muito rapidamente e derretem tão rápido como se formam. A água de derretimento escoa pela superfície e uma semana depois há seca novamente e todo o problema da destruição destes episódios climáticos devastadores.

 Dúvidas sobre o futuro

Perguntado sobre o futuro, Pedro Hauck não se sente muito animado. “Em alguns anos cheguei a ver alguma reação, como em 2013, quando fez bastante frio nos Andes e as montanhas voltaram a ficar brancas. Porém foram apenas tempestades seguidas. Em 2018 e 2019 também houve mais nevascas na Bolívia, em plena temporada. Porém não vemos um avanço das geleiras”.

Sobre a questão ambiental que envolvem as mudanças climáticas ele afirma: “politizaram o discurso, mas os fatos estão aí. Infelizmente tem gente que sequer consegue ver e dizem que estamos distorcendo as fotos. A ciência não tem certeza sobre o efeitos dos gases no derretimento das geleiras, mas basta ver imagens de satélite para notar que grandes áreas de vegetação nativa se tornaram pasto, canaviais etc. É evidente que substituição da vegetação por outra cultura ou por área urbana muda o clima no local, mas isso ultrapassa a esfera local e já é um problema global e ninguém discute isso”, conclui o montanhista.

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Sobre o autor

Maruza Silvério

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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