O Professor que pintava montanha com tinta e corda: Erwin Gröger

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Hoje, 21 de agosto, é o Dia Nacional do Montanhismo, data que marca a conquista do Marumbi em 1879, o primeiro cume escalado no Brasil com fins puramente esportivos.
Erwin Gröger não estava lá naquele dia, ele nasceria só 33 anos depois, do outro lado do Atlântico. Mas se existe um nome que define o que o Marumbi se tornou depois daquela primeira conquista, é o dele. Onde os pioneiros de 1879 abriram a porta, o Professor construiu a casa inteira lá dentro: décadas de técnica, ensino, e uma relação com a montanha que incluía, sempre, um pincel na mochila.
Nasceu em Viena em 9 de agosto de 1912, um dia depois do aniversário da conquista do Mont Blanc, considerada o marco do montanhismo moderno. Engenheiro agrônomo, falava cinco idiomas. Em 1939, com a Áustria anexada pela Alemanha nazista, deixou o país rumo ao Brasil. Passou anos trabalhando em cidades diferentes, entre elas Monte Alegre, hoje Telêmaco Borba, até se aproximar de Curitiba.

“Eu quis pular do trem”

A primeira vez que Gröger viu o Marumbi foi de dentro de um trem, indo em direção a Paranaguá. Ele mesmo contou essa cena, em entrevista gravada em 1996: “Quando chegamos perto do Marumbi, eu quis pular e ele me segurou: Não Erwin, não pode! Mas eu quero subir esta fenda grande aqui!” O amigo explicou que três rapazes já estavam havia tempo tentando conquistar aquela via, e que seria preciso pedir permissão para se juntar a eles, “um ponto de honra”. Gröger entendeu na hora.
Mudou-se para Curitiba pouco depois, se aproximou dos marumbinistas da época, e junto com os irmãos Orisel e Osíris Currial (conhecidos como Vespa e Arame) se dedicou à conquista da Fenda Principal do Abrolhos, a mesma fenda que o fez querer pular do trem. O material praticamente não existia. Ele mesmo contou como resolveu isso: “Eu tinha que fazer os pregos na forja […] em vez de almoçar e pagar por uma sopa 200 réis, ia malhar e jogá-los na água para resfriar.” Emprestaram uma corda “do tipo bem grande de amarrar transatlânticos”, e conseguiram alguns mosquetões com o comandante do corpo de bombeiros da cidade, também austríaco.
Levaram seis fins de semana. A entrada que Gröger deixou no livro de registro do cume, em 9 de maio de 1948, ainda existe: “Fenda Principal, 1a escalada, 6 dias de trabalho, 17 grampos […] Professor e Vespa.” Foi esse feito, aliás, que lhe rendeu o apelido que carregaria pelo resto da vida.

Tinta e corda na mesma mochila

O que faz de Gröger uma referência tão forte para essa coluna não é só o pioneirismo técnico. É que ele nunca separou montanha de arte, nem por um segundo. Começou a pintar em 1964, seguindo uma linhagem de família: o bisavô já pintava, a avó decorava porcelanas com ouro, o pai era desenhista técnico. Pintava principalmente montanhas e orquídeas, num estilo acadêmico com influência impressionista, e mais tarde se arriscou no desenho a lápis grafite, técnica que ele mesmo considerava mais difícil que aquarela, por
depender só de duas cores para expressar tudo.
Um detalhe que vale destacar: Gröger é considerado o único pintor, em cem anos de história do Marumbi, a ter pintado obras no próprio cume das montanhas. Dezesseis telas, feitas in loco, no alto. Chegou a ter uma gruta na Serra que usava como ateliê, um verdadeiro apartamento de pedra no meio da mata. Ele não descia da montanha para depois pintar de memória. Levava a tinta montanha acima e pintava lá, com o corpo ainda
ofegante da subida e a paisagem inteira na frente dos olhos, não na lembrança.

Capa do livro “A Vida de Erwin Gröger”, de Teresina Costa e Maria Helena Furlanetto (filha
do alpinista). Curitiba: Grafitec, 2000.

Uma filosofia de montanha, nas próprias palavras

Gröger não guardava a filosofia dele só para si. Dizia, em entrevistas, que “ser montanhista não é apenas ser um esportista porque montanhismo não é puro esporte, mas é antes ser um apaixonado.” Sobre o Marumbi especificamente, chegou a dizer que aquele lugar significava “talvez a síntese de me encontrar a mim mesmo junto à natureza, o ponto mais perto, o ponto de partida para mais e mais.”
Também deixou clara a importância da amizade dentro do montanhismo: “As montanhas do Marumbi são as nossas montanhas de casa, é isto o que eu sinto toda vez que desço do trem e olho para aquilo tudo. É um lugar para se reunir os amigos. Lá, aprendi que montanha sem amigos é egoísmo.” E resumiu, com simplicidade, o que via como o verdadeiro sentido de subir: “O montanhista não é diferente das outras pessoas, nós apenas temos um ideal diferente: o de subir montanhas para ser felizes.”

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Pintando o Marumbi de observação, no campinho da base. Foto: acervo pessoal.

O que reconheço nele

Existe uma coincidência boba que me tocou quando descobri: Gröger nasceu em 9 de agosto, eu também, oitenta anos depois. Mas a ligação que sinto de verdade com ele não veio dessa data, veio de uma tarde específica, num sábado qualquer, na base do Marumbi.

Eu tinha decidido enfrentar o Abrolhos sozinha, depois de já ter feito o conjunto umas cinco vezes, mas nunca uma montanha inteira sem companhia, e o medo estava ali, honesto, sem se esconder. Cheguei de trem no sábado, na hora do almoço, sabendo que só poderia subir no dia seguinte, bem cedo, o que deixava a tarde inteira livre na base, esperando. Foi aí que resolvi tirar minha aquarela da mochila e sentar no camping, onde existe uma janela entre as árvores que emoldura o cume quase perfeitamente.
Fiz alguns rascunhos a lápis até achar a distribuição certa no papel, e comecei a pintar com toda a calma que aquarela exige, esperando cada camada de tinta secar enquanto observava onde estava a rocha e onde estava a vegetação, a luz, a sombra, a marca vermelha e alaranjada da Via Enferrujado, subindo pela face do Abrolhos. Fui construindo aquele momento no papel enquanto o tempo passava devagar ao meu redor, e foi exatamente ali, pintando, que percebi que ainda não era a hora de encarar aquela montanha sozinha.
Respeitei isso. No dia seguinte, troquei o Abrolhos pelo Rochedinho, um pico mais fácil, que nem chega a ser considerado uma montanha, para ser minha primeira conquista solo. Voltei para casa com a pintura debaixo do braço, um recorte pequeno de papel carregando um turbilhão inteiro de sentimento daquele fim de semana. Até hoje não fiz o Abrolhos sozinha, ainda acho ele imponente demais para mim, mas aquele fim de semana me ensinou algo que carrego comigo desde então: existe uma magia particular em enfrentar uma trilha sozinha, principalmente sendo mulher, mesmo com o medo presente, talvez até por causa dele. É um tipo de conexão comigo mesma que eu não encontro de nenhuma outra forma, e que só a solidão da montanha parece oferecer.
Gröger levava tinta montanha acima e pintava no cume, depois da conquista. Eu, naquele sábado, pintei a montanha antes de admitir que ainda não estava pronta para ela, e a pintura acabou virando o registro exato desse limite, não da vitória, mas do respeito por ainda não ter chegado lá. Acredito que seja essa a parte mais honesta da relação entre arte e montanha: nem sempre a tela guarda a conquista, às vezes ela guarda só a verdade do momento, o que se sente antes de estar pronto. Um dia o Abrolhos vai acontecer, e talvez,
nesse dia, eu tente pintar lá do cume, como o Professor fazia. Morreu em 2008, aos 96 anos, deixando uma frase que resume o que passou a vida inteira tentando ensinar: “A montanha é a melhor escola, e zelar por ela é uma obrigação para a nossa sobrevivência e para toda a humanidade.” Hoje existe um bosque com o nome dele
em Curitiba, perto da Ópera de Arame, com pedras que apontam para montanhas importantes, entre elas o Pico Marumbi e o Grossglockner, o pico mais alto da Áustria, ligando as duas pátrias que ele viveu.

Momento de observação: esboçando o Marumbi antes de começar a pintura. Agosto de
2025. Foto: acervo pessoal.

Fontes: As falas diretas de Erwin Gröger citadas neste texto vêm da tese de doutorado “Montanhas e Memórias: uma identificação cultural no Marumbi”, de Alessandra Izabel de Carvalho (UNICAMP, 2005), que reúne entrevista gravada com Gröger em 07/05/1996 e registros originais do livro de cume do Abrolhos. Também consultamos o artigo “Quem foi Erwin Gröger, o Professor?”, de Maruza Silvério (AltaMontanha), e a entrevista de 1984 publicada pelo Clube Paranaense de Montanhismo (CPM).

Tudo isso que contei aqui é só um recorte. A vida de Erwin Gröger é grande demais pra caber num único texto, e sigo pesquisando sobre ele, então é bem possível que essa não seja a última vez que ele apareça nessa coluna. Se quiser continuar essa jornada com o Professor, esses são bons próximos passos.

Se quiser se aprofundar ainda mais na vida do Professor, a Maruza Silvério escreveu sobre
ele aqui no portal, em “Quem foi Erwin Gröger, o Professor?”. E se preferir ver e
ouvir essa história, o Pedro Hauck gravou um vídeo especial contando a trajetória completa
dele, lá no canal do YouTube da AltaMontanha.

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Sobre o autor

Emilin Lima é gestora de marketing na AltaMontanha e apaixonada por transformar em arte tudo que vive nas trilhas. Escaladora e montanhista, tem na Serra do Mar paranaense seu principal terreno de treino e contemplação. Antes de subir montanhas, subiu outros caminhos criativos: foi tatuadora, é ilustradora e origamista, e por muitos anos viveu da arte como profissão. Hoje mantém um estudo constante sobre história da arte e pinta, sobretudo, as montanhas que visita: cada cume que alcança vira, mais tarde, um traço no papel. Nesta coluna, junta as duas paixões que mais a movem: o ato de escalar e o ato de observar.

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