Pesquisa realizada em 2025 busca atualizar perfil dos praticantes e entender mudanças após cinco anos de transformações no outdoor brasileiro
Quem é o montanhista brasileiro? A pergunta parece simples, mas durante anos não houve dados suficientes para respondê-la. É justamente essa lacuna que o novo Censo do Montanhismo Brasileiro tenta preencher. Realizada em 2025, a pesquisa deve ter seu relatório geral divulgado nos próximos dois meses e busca atualizar o primeiro levantamento, feito em 2020 por Giselle Saraiva de Melo, além de ampliar o retrato para outras modalidades praticadas em ambientes de montanha.
A iniciativa nasceu antes mesmo da primeira edição. Em 2019, Giselle, voluntária do montanhismo organizado e envolvida na realização de eventos do setor, percebeu que não conseguia responder a perguntas básicas feitas por potenciais patrocinadores sobre quem participava das atividades. “O principal motivo para o primeiro censo foi a ausência de dados”, explica.
A partir daí, ela decidiu criar uma pesquisa que pudesse reunir informações sobre idade, gênero, renda, localização, formação e modalidades praticadas. A segunda edição mantém parte das perguntas de 2020 justamente para permitir comparações e acrescenta novas questões sobre caminhada, escalada, mountain bike e trail running, além de consumo de equipamentos e comportamento.

Giselle Saraiva de Melo, montanhista e idealizadora do Censo do Montanhismo Brasileiro. Foto: Arquivo Pessoal de Giselle Saraiva de Melo.
Mais do que contar praticantes
Para Giselle, a importância do levantamento está justamente em transformar uma comunidade pouco conhecida em um público que possa ser compreendido com mais precisão. “A ideia é de fato atualizar e quando a gente fez o primeiro censo […] eu fiz como eu falei pra poder beneficiar todas as pessoas que realmente podem se utilizar desses dados”, afirma.
A pesquisa também procura lidar com uma dificuldade conceitual do próprio termo “montanhismo”. Giselle explica que o levantamento ampliou o número de modalidades justamente porque muitas pessoas praticam atividades em ambientes de montanha sem necessariamente se identificarem como montanhistas. Trail running, mountain bike, escalada e caminhada têm públicos diferentes, embora compartilhem determinados espaços.
Essa ampliação, segundo ela, foi uma das mudanças da nova edição. “A metodologia não mudou, o que mudou foi abranger mais modalidades”, diz. Parte das perguntas foi mantida para preservar a possibilidade de comparação com o levantamento anterior, enquanto outras foram aprofundadas para compreender novos hábitos e comportamentos.
Uma comunidade ainda desigual
Entre os resultados já conhecidos da primeira edição, um dado chama atenção: cerca de 30% dos respondentes eram mulheres, enquanto quase 70% eram homens. A diferença contrasta com a composição da população brasileira e, para Giselle, indica uma oportunidade de ampliar a participação feminina no esporte.
“O que a gente tem que fazer pra isso acontecer?”, questiona. Para ela, conhecer onde estão as maiores diferenças entre homens e mulheres e em quais modalidades elas aparecem pode ajudar clubes, empresas e projetos a direcionar ações específicas.
A nova pesquisa também acompanha a dimensão etária. Embora os números definitivos ainda não tenham sido divulgados, Giselle afirma que os dados preliminares apontam novamente para uma concentração de pessoas acima dos 30 anos.
Ela pondera que o resultado pode estar relacionado ao próprio tempo de construção da experiência esportiva. “Você enxerga isso até pela maturidade de você conseguir também alcançar vias mais difíceis, que você não faz isso da noite pro dia sem ser com dedicação”, afirma.
Mas a idade pode esconder outra mudança importante: a maneira como diferentes gerações se relacionam com a identidade de montanhista. Segundo Giselle, praticantes mais antigos tendem a construir um sentimento maior de pertencimento ao montanhismo, enquanto os mais jovens circulam com facilidade entre diferentes modalidades e podem não sentir a mesma necessidade de se definir por uma única “tribo”.
Quem chega depois dos 30
A experiência de Olívia Bonfim ajuda a colocar rosto e trajetória nessa discussão. Ela começou a fazer trilhas já adulta, por volta dos 25 ou 26 anos, depois de anos trabalhando no ambiente corporativo. A natureza apareceu inicialmente como uma tentativa de encontrar outra forma de lidar com a pressão cotidiana.

Olívia Bonfim no Nepal. Foto: Arquivo Pessoa de Olívia Bonfim
“Depois de inúmeras buscas, de ter outras coisas na vida que não fosse só o trabalho, as trilhas apareceram”, conta. No começo, ela não tinha preparo físico e relata que sofreu nas primeiras experiências. O condicionamento foi construído gradualmente até que as trilhas levassem a desafios maiores.
Vieram a Patagônia, o Everest Base Camp e, depois, a escalada em rocha. A trajetória avançou para expedições de altitude, escalada em gelo, Aconcágua e Lenin, até chegar ao Everest e ao Lhotse. O caminho, segundo ela, não aconteceu de uma vez. “Foi um caminho muito de passinho em passinho”, resume.
A experiência também fez Olívia perceber que sua trajetória não é tão incomum quanto poderia parecer. Ela afirma observar muitas pessoas entre 45 e 55 anos chegando agora às atividades de montanha, sem necessariamente terem crescido em famílias ou grupos ligados à natureza.
“A grande maioria das pessoas que a gente vê chegando […] estão na faixa etária ali dos 45 aos 55 anos e elas estão começando nesse mundo agora”, relata.
A montanha como recomeço
Entre as mulheres, Olívia percebe ainda uma motivação que vai além do exercício físico. Segundo ela, há praticantes que chegam à montanha durante momentos de mudança pessoal e encontram naquele ambiente uma oportunidade de reconstruir relações consigo mesmas.
“Tem muitas mulheres que estão em fases de transformação de vida, de novos momentos, de novas descobertas”, conta. Ela cita, como exemplo, mulheres cujos filhos já cresceram e que passam a buscar novas experiências.

A brasileira comemorando o cume da montanha mais alta do mundo. Foto: Arquivo Pessoal de Olívia Bonfim
Essa dimensão subjetiva é justamente uma das limitações de pesquisas quantitativas. Uma planilha pode registrar idade, gênero, renda ou modalidade, mas dificilmente consegue medir pertencimento, medo, transformação pessoal ou a relação que alguém estabelece com a natureza.
“Essa parte mais subjetiva ela é sem dúvida”, afirma Olívia. Para ela, acompanhar grupos de praticantes mostra que existem diferentes razões para chegar à montanha, especialmente entre mulheres.
:: Leia também: Olívia Bonfim torna-se a primeira mulher brasileira a realizar o Double Head
Uma mudança acelerada pela pandemia
As duas entrevistadas também apontam a pandemia como um momento de transformação. Giselle lembra que o primeiro levantamento foi feito em 2020, justamente quando as relações com os espaços ao ar livre começaram a mudar. Olívia percebeu esse movimento diretamente em regiões como São Bento do Sapucaí, onde passou a observar pessoas procurando casas, sítios e experiências na natureza.
“Essa busca não existia antes”, afirma. Na avaliação dela, trilha, escalada e outras atividades outdoor passaram a alcançar pessoas que anteriormente não tinham qualquer relação com esse universo.

Após começar escalar, Olívia nunca mais parou de buscar novos desafio. Foto: Arquivo Pessoal de Olívia Bonfim
O crescimento das academias de escalada indoor também abriu novas portas, especialmente nas cidades. Lugares que antes tinham poucas opções de iniciação passaram a oferecer estruturas para crianças e adultos conhecerem a modalidade.
Para Olívia, isso ajuda a explicar por que o ambiente outdoor pode se tornar mais diverso nos próximos anos. “Eu acho que o movimento com a pandemia se tornou muito forte e despertou esse interesse em muitas pessoas que antes não passava pela cabeça gostar de estar no outdoor.”
O que os números ainda não mostram
Apesar da quantidade de respostas, Giselle faz uma ressalva importante: o levantamento é uma amostra, não um recenseamento de todo o universo de montanhistas do país. Como ainda não se sabe exatamente quantas pessoas praticam essas atividades no Brasil, não é possível extrapolar automaticamente os resultados para toda a população.
Ainda assim, ela considera a amostra expressiva e pretende buscar apoio de especialistas para compreender melhor seus limites estatísticos. “Quem é esse universo, não sabemos”, resume.
A dificuldade de dimensionar o público é justamente uma das razões pelas quais novos levantamentos são importantes. Sem uma série histórica, torna-se difícil saber se o crescimento percebido por clubes, marcas e praticantes representa uma transformação nacional ou apenas mudanças localizadas.
Dados para além do esporte
A expectativa é que o relatório geral seja publicado nos próximos dois meses. Depois, Giselle pretende produzir análises específicas por modalidade, aproveitando as perguntas direcionadas para caminhada, escalada, mountain bike e trail running.
Os resultados podem interessar a diferentes setores. Empresas e lojistas podem conhecer melhor seus públicos; clubes e associações podem orientar estratégias de comunicação; projetos sociais podem identificar grupos ainda pouco representados; e gestores públicos podem encontrar informações para discutir políticas relacionadas ao esporte e ao lazer.
Hoje, segundo Giselle, grande parte das políticas públicas associadas às atividades de montanha ainda passa pela lógica do turismo. Ela defende que o montanhismo também seja reconhecido como esporte e prática de lazer, com políticas próprias de incentivo.
“Se bem utilizados, os resultados do censo vão ajudar a diminuir essa diferença de conhecimento”, afirma.
Mais do que descobrir quantos praticantes existem ou qual é sua idade média, o novo levantamento pode ajudar a entender uma transformação que já aparece nas experiências de quem vive a montanha: pessoas estão chegando em diferentes momentos da vida, por diferentes caminhos e com diferentes expectativas. O relatório poderá dizer até que ponto essa percepção representa uma mudança estrutural, e quem, afinal, está ocupando a montanha brasileira.













