Piloto francês, um dos nomes de destaque do hike-and-fly internacional, sofreu um acidente após sua asa atingir o cabo de um teleférico usado no transporte de feno no Passo Rombo, na Itália. Bourdelle havia conquistado o sexto lugar na Red Bull X-Alps 2025 e, meses antes, estabelecido o maior voo já realizado a partir de Chamonix.
O mundo do parapente e das corridas de montanha perdeu em 25/08 um de seus jovens talentos. O francês Rémi Bourdelle, de 34 anos, morreu durante a disputa da Dolomiti Super Fly, uma competição de hike-and-fly realizada nas Dolomitas, na Itália.

Rémi Bourdelle foinum talentoso atleta do Hike and Fly. Foto: Rémi Bourdelle Facebook
O acidente aconteceu por volta das 19h10, nas proximidades da ponte Timmelsbrücke, no município de Moso in Passiria, próximo ao Passo Rombo, a aproximadamente 2.000 metros de altitude. Segundo as informações preliminares divulgadas pela organização da prova, Bourdelle atingiu com sua asa um cabo pertencente a uma instalação utilizada para o transporte de feno. Após o impacto, o piloto caiu cerca de 60 metros.
Um homem que estava na encosta oposta testemunhou o acidente e acionou o socorro. Equipes de resgate alpino, bombeiros, Guardia di Finanza e o helicóptero de emergência foram mobilizados, mas infelizmente os ferimentos foram fatais.
As circunstâncias exatas do acidente ainda estão sendo investigadas pelas autoridades italianas. A organização da Dolomiti Super Fly decidiu cancelar o restante da competição após a confirmação da morte do atleta, em respeito à família, aos amigos e aos demais competidores.
Uma referência do hike-and-fly
A morte de Bourdelle repercutiu imediatamente entre os principais nomes do voo livre e do montanhismo europeu. Ele era considerado um dos pilotos mais respeitados da comunidade de Chamonix e vinha se destacando justamente em uma modalidade que combina duas de suas maiores paixões: o voo e a montanha.
O hike-and-fly reúne deslocamentos a pé, montanhismo e parapente. Os atletas carregam todo o equipamento nas costas e precisam tomar decisões constantemente sobre quando caminhar, quando decolar e quais linhas de voo utilizar para avançar pelo percurso.

Fazendo o que mais gostava, estar nas montanhas. Foto: Rémi Bourdelle Facebook
Bourdelle havia se tornado um dos nomes de destaque dessa nova geração de atletas especializados na modalidade. Nos últimos anos, participou de importantes competições internacionais, entre elas a X-Pyr, a Dolomiti Super Fly e a Bornes to Fly. Em 2024, venceu a edição de inverno da Eigertour. Em janeiro de 2026, voltou a vencer a Winter Eigertour, competição que combina esqui-alpinismo e voo em condições de inverno.
De suporte à conquista da X-Alps
Um dos capítulos mais importantes de sua trajetória aconteceu na Red Bull X-Alps, considerada uma das provas de aventura mais exigentes do mundo.
Antes de competir, Bourdelle participou da edição de 2023 como suporte do piloto japonês Emoto Yuji. A experiência lhe permitiu conhecer por dentro a dinâmica da competição e preparar-se para sua estreia como atleta.
Em 2025, finalmente entrou na largada como competidor. Entre 35 atletas de 17 países, Bourdelle terminou a prova em sexto lugar, completando o percurso em 8 dias, 8 horas e 55 minutos.

Bourdelle conquistou títulos expressivos em sua carreira. Foto: Rémi Bourdelle Facebook
A edição de 2025 percorreu cerca de 1.300 quilômetros através dos Alpes, combinando longos trechos de caminhada e voo. Bourdelle foi o melhor estreante francês na classificação e cruzou a linha de chegada em Zell am See, na Áustria, após uma prova marcada por grande desgaste físico e decisões estratégicas.
O menino que descobriu o parapente em La Réunion
Rémi Bourdelle nasceu em Chamonix, aos pés do Mont Blanc, um dos principais centros mundiais do montanhismo e do voo livre. Entretanto, passou boa parte da infância e adolescência na ilha francesa de La Réunion, no oceano Índico.
Foi ali, ainda estudante, que teve seu primeiro contato com o parapente, por volta dos 12 anos. A experiência despertou uma paixão que o acompanharia pelo restante da vida.
Além do parapente, Bourdelle praticava escalada, alpinismo, esqui, trail running e speed riding. Sua relação com a montanha ia muito além das competições: ele era conhecido por realizar aventuras de para-alpinismo, nas quais subia uma montanha praticando esqui ou alpinismo e retornava voando de parapente.
Paralelamente à carreira esportiva, trabalhava como professor de Educação Física. Segundo a imprensa francesa, atuava desde 2014 na Cité Scolaire Frison-Roche, em Chamonix, onde era muito querido por colegas e alunos.
Recordes sobre Chamonix
Em 2026, Bourdelle havia alcançado um dos pontos altos de sua trajetória esportiva. No dia 27 de maio, decolou de Planpraz, em Chamonix, às 9h20, e realizou um voo de 314 quilômetros, estabelecendo o recorde do voo mais longo já realizado a partir de Chamonix. O percurso passou pela Suíça e pela Savoia, aproveitando as correntes térmicas para ganhar altitude e percorrer grandes distâncias.
O atleta também era detentor do recorde de triângulo da região de Chamonix. O perfil oficial da Red Bull X-Alps registra um voo de 309 quilômetros entre a região de Grenoble e Chablais, realizado em uma grande rota triangular pelos Alpes.
Poucos dias antes do acidente, Bourdelle ainda demonstrava entusiasmo com seu futuro no esporte. Segundo a Cross Country, ele havia compartilhado sua expectativa de disputar novamente a Red Bull X-Alps e pretendia buscar outro grande voo de aproximadamente 300 quilômetros a partir de Chamonix.
Uma perda para toda a comunidade
A morte de Rémi Bourdelle representa uma perda significativa para o parapente, para o hike-and-fly e para a comunidade de montanha de Chamonix.
Na Dolomiti Super Fly, ele estava acompanhado pelo irmão, Adrien. A prova reunia 40 atletas e percorria cerca de 520 quilômetros pelas Dolomitas. Entre os participantes estavam alguns dos principais nomes do cenário internacional, como Chrigel Maurer, Aaron Durogati, Patrick von Känel, Lars Meerstetter e Simon Oberrauner.
Bourdelle não era apenas um competidor. Em Chamonix, também ajudava a desenvolver o esporte e estava envolvido na organização de provas de caminhada e voo, como a Verti’Cham e o Mont-Blanc Air Tour.
A trajetória de Rémi Bourdelle foi marcada pela busca de novas linhas, grandes voos e pela integração entre diferentes modalidades de montanha. Aos 34 anos, sua vida foi interrompida enquanto fazia justamente aquilo que havia transformado em uma forma de viver: percorrer as montanhas entre o chão e o céu.
A organização da Dolomiti Super Fly declarou que Bourdelle era “um dos pilotos mais respeitados e admirados” da comunidade internacional do parapente e manifestou solidariedade à família, aos amigos e aos companheiros de equipe.
A investigação sobre as circunstâncias do acidente permanece em andamento.







