Como ter sucesso numa escalada em alta montanha

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Todos os anos eu vejo muitos brasileiros indo aos Andes para escalar montanhas de altitude. Com a valorização do Real, a alta de nossa economia, acesso à informação, equipamentos e claro, um crescimento da cultura do montanhismo em nosso país, deixamos nos últimos anos de ser elementos raros nas grandes montanhas e passamos a ser um dos países que mais exporta montanhistas em picos populares da Bolívia, Argentina, Chile, Peru e Equador.

Publicado originalmente na Revista Montanhas, edição 2.
 
 
Apesar da alta, no entanto, não estamos entre os montanhistas que mais fazem cume nas altas montanhas. Pelo contrário, de acordo com vários contatos que tenho entre as agências de La Paz e Mendoza, percebo que o brasileiro tem um fama ruim nos países andinos. A fama de desistir fácil.
 
Infelizmente esta fama é um fato. Apesar de termos excelentes montanhistas, esta grande massa de gente indo aos Andes todos os anos é muito rotativa, ou seja, as pessoas vão mas poucos retornam. É por isso que há muitos brasileiros em montanhas populares, como o Aconcagua, Cordón del Plata e o Huayna Potosi, mas poucos em montanhas mais difíceis, pois pouca gente continua na modalidade e assim não há muita progressão. Por que isso está acontecendo? O que podemos fazer para não fazermos parte deste grupo de gente que desiste fácil?
 
Ir para os Andes é o sonho de muitos montanhistas brasileiros. Mais do que um sonho, conhecer uma montanha nevada e fazer um escalada no gelo é tido como uma progressão natural para muita gente. Conseguir este objetivo requer experiência em montanhismo e um investimento alto em equipamentos? É este o ponto que quero chegar. O que precisamos fazer para ter sucesso numa montanha de altitude?
 
Primeiros passos
 
Primeiramente eu reconheço dois perfis de brasileiros que vão aos Andes. O primeiro é do cara que já faz montanhismo por aqui e após bastante tempo e muitas economias vai para os Andes para conhecer o gelo e seguir sua progressão natural. Geralmente a pessoa que tem este perfil acaba indo aos Andes sem nenhuma estrutura, seja porque não tem dinheiro, ou porque, como montanhista, prefere fazer tudo por conta própria. Não tenho nada contra fazer montanhismo pelos próprios meio. Eu mesmo sempre escalei assim, porém em se tratar de montanhas de altitude num ambiente bem diferente do nosso, as dificuldades são outras e lidar com a novidade não é fácil até mesmo para quem já está acostumado a carregar peso nas costas e caminhar longos quilômetros montanha acima.
 
O outro perfil é bem diferente do primeiro. São de pessoas que não tem experiência nenhuma, mas sonham em subir uma montanha alta. Eles acabam contratando agências e vão com boa estrutura, porém, a total falta de experiência pesa muito para que o cume se torne algo alcançável.
 
Vejo que o que falta para as pessoas no primeiro perfil é o que sobra nas do segundo e vice versa. 
 
A falta de experiência, o treinamento específico, é um grande limitante para quem não está acostumado a fazer montanhismo. Gente que treina em academia, correndo 10 km em 40 minutos todos os dias podem não conseguir andar como um montanhista que pratica sua “caminhadinha” nos finais de semana. Isso ocorre porque o montanhista habituado é acostumado a fazer exercício pesado 10 horas num dia, dormir, acordar e andar de novo 10, 12 horas no outro. Correr uma hora por dia te dá preparo cardiorrespiratório, mas não dá a resistência que só fazer montanhismo te pode dar.
 
Praticar montanhismo no Brasil te ajudará bem mais do que apenas fisicamente. Estar habituado a montar e desmontar acampamentos rapidamente, saber cozinhar com poucos recursos e apreciar estas gororobas, conseguir dormir e descansar em situações que para a maioria da população é desconfortável e transformar isso em algo delicioso é o que vai te botar no cume de uma montanha, principalmente se ela for longa, ou seja, se você estiver acostumado a viver na montanha por um período de tempo longo. Tudo isso pode ser adquirido na Mantiqueira, Serra do Mar e em outras montanhas de nosso país.
 
Por outro lado, gente que anda muito bem pode deixar de fazer uma montanha porque tem uma bota ruim, está com uma roupa não apropriada, uma luva que não aquece e não isola nada ou simplesmente porque não tem a perícia de andar direito no gelo, de saber derreter neve, de saber se aclimatar, coisas que não aprendemos por aqui, mas que tendo um guia, poderemos aprender mais rápido do que fazendo sozinho. 
 
Ou seja, se você está indo para os Andes pela primeira vez adquira experiência no Brasil subindo nossas montanhas, fazendo travessias, carregando peso nas costas, cozinhando, se acostumando com a comida de montanha, a falta de conforto e a lidar com os imprevistos. Se você já está habituado com tudo isso, tente juntar um pouco mais de dinheiro e vá melhor equipado e com uma estrutura melhor, de repente deixando de ser turrão e aprendendo com um guia de montanha as diferenças entre as nossas e as montanhas dos Andes, que são muitas.
 
Aclimatação
 
Fazer com que seu corpo se adapte às condições de pressão da altitude é uma coisa séria e há tanta coisa que se falar sobre ela que daria para escrever um livro. 
 
Até hoje a ciência não conseguiu explicar direito como a aclimatação funciona no organismo humano, pois há gente que se adapta bem e outras que nunca se adaptam. O Brasil é um país com altitude baixas, então se você não sabe como seu corpo reage na altitude reserve um tempo para isso. 
 
Não adianta ir para a altitude se você não tem tempo para escalar. Se este for seu caso, prefira escalar montanhas com menos de 3 mil metros.
 
Frio
 
Montanha de altitude sempre tem temperaturas baixas, muito mais baixas que na Mantiqueira ou na Serra gaúcha. Não adianta querer usar os mesmos equipamentos que você usa aqui nos Andes. Sacos de dormir bons são essenciais, pois uma noite mal dormida é um dia seguinte ruim e motivo para desistência. Geralmente o brasileiro não tem boa resistência para o frio então prepare-se.
 
Estratégia
 
Subir uma montanha de altitude requer boas estratégias e isso cabe a você se conhecer (novamente através da experiência) para saber seu limite. Você precisará fazer uma boa média entre agilidade x conforto, ou seja, conseguirá ir mais rápido se for leve, mas indo leve terá bem menos conforto. Agilidade é tudo na montanha, assim como conforto também, mas é impossível ter os dois ao mesmo tempo.
 
O dia do ataque final ao cume é um dia muito importante. Ele sempre deve ser feito de madrugada, para chegar cedo ao topo. Isso porque as manhãs sempre tem uma estabilidade maior do tempo e à tarde o calor irá derreter a neve o que poderá propiciar tempestades e avalanches. Não é nada fácil acordar antes do sol nascer e vencer o frio da madrugada. Porém, ver o sol nascer de um lugar alto é quase um sinônimo de cume (sem falar que é uma experiência inesquecível). Nunca faça um cume em hora avançada e não se esqueça que o topo é apenas metade do caminho, você terá que voltar tudo depois. Guarde energia para isso.
 
Psicológico
 
Este é o ponto crucial e que mais faz as pessoas desistirem. Montanha de altitude tem uma beleza que assusta e quem não está acostumado desiste fácil. Contribui para isso as notícias que chegam até nós sobre as altas montanhas, sempre carregadas de tragédias. Estas notícias não deixam de ser verdadeiras, mas muitas vezes precisamos aprender a não dar ouvidos à nossos pensamentos que estão muito influenciados por elas. Sei que isso não é fácil e acordar de madrugada para fazer um cume contribui para isso. Enfrentar o frio e a escuridão é temerário, mergulhamos em nossos pensamentos e o desconhecido nos faz sempre fazer tudo errado. Entretanto é só ver o espetáculo do sol nascer para todos os pensamentos negativos irem embora e continuar adiante.
 
Não é sempre que sol brilha para a gente e isso contribui muito para a piora de nossos pensamentos. As vezes acontece de ficarmos dias na barraca encurralados por uma tempestade. O marasmo e a incerteza toma conta da gente e aí somos presas fáceis para a angustia. Não há remédio para isso, apenas a esperança. Muita gente aproveita a calmaria depois da tempestade para descer. Faça o contrário, suba até o cume.
 
Ficar esperando na barraca nos faz pensar e é por isso que a gente acaba desistindo, novamente aquilo que disse antes: Não dê ouvidos à seus pensamentos. No entanto aproveite a chance para se conhecer. Leve um caderno e um lápis e escreva. Se isso não for seu talento, leve um livro e leia, de preferência um livro motivador, senão você terá apenas a cara barbuda e suja do seu companheiro para ver e a embalagem da sua comida liofilizada para ler.
 
Um outro fator que pesa para a desistência é a saudades de casa. É incrível, passamos horas, dias pensando no momento em que vamos viver a liberdade das montanhas, mas basta chegar lá e, principalmente, dar algo errado, para que a gente fique com saudades de casa, da mulher, do cachorro, de cenas triviais do dia a dia, como tomar um café no final de tarde com pessoas que a gente gosta. Se isso acontece contigo, que bom! Sinal que você tem bons motivos para voltar. Avalie suas condições e sempre tenha como meta seu retorno com segurança.
 
Concluindo
 
As montanhas são lugares lindos que nos faz voltar a viver como crianças, brincando a procura de boas aventuras, mas elas só são completas se tiverem um final feliz e pudermos voltar para casa e contar nossa experiência, de preferência com sucesso, que é chegar no topo. Controle seu emocional, escale por prazer, sem o peso de ter que voltar com o cume, aprenda com seus erros e o erro dos outros. Leia bastante, escreva, domine seus medos aprenda a vencer, nem que para isso seja aprender a desistir. 
 
Não se ensina a ter sucesso nas montanhas, pelo menos não tão rápido e de forma teórica. O importante é saber que as montanhas sempre estarão lá e que, como montanhistas, somos cidadãos do mundo e não nos limitamos às fronteiras do homem. Então mesmo se não der certo na primeira vez, numa segunda chance você terá mais experiência e saberá o que fazer para dar certo. O sucesso de uma escalada em alta montanha é o resultado de conhecer a si próprio e assim superar seus próprios limites.
 
 
Pedro Hauck, 33 anos, montanhista há 16. Aficionado por montanhismo e escalada tendo seu diferencial por possuir uma larga experiência em montanhas de altitude nos Andes. É editor do site AltaMontanha.com, um dos principais meio de divulgação do montanhismo brasileiro e é sócio, junto com Maximo Kausch da agência de montanhismo GenteDeMontanha, onde ministra cursos de escalada. Ele é formado em Geografia e faz doutorado em Geologia Ambiental.
 
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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

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