Quantas montanhas há na Mantiqueira Norte.

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Neste artigo abordarei quais são as montanhas mais altas da região da Mantiqueira Norte, sendo esta mais uma contribuição da série de estudos que tenho realizado revisando quais são as montanhas mais altas do Brasil usando conceitos técnicos e científicos. Este artigo vem a endossar o argumento para revisão da lista das montanhas mais altas do Brasil publicada pelo IBGE no Anuário Estatístico Brasileiro.

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Onde fica a Mantiqueira Norte?

A região que denomino de Mantiqueira Norte é a que se situa ao Norte do Planalto do Itatiaia que está inserida inteiramente no território de Minas Gerais que tem a Serra do Papagaio, entre os municípios de Aiuruoca, Alagoa, Baependi e Itamonte como mais famosa feição topográfica. A razão pela qual eu dividi a Mantiqueira em três, Mantiqueira Clássica, Planalto de Itatiaia e Mantiqueira Norte, se deu por motivação técnica e didática.

Imagem de relevo Serra da Mantiqueira, SP, produzida a partir de dados de radar do projeto SRTM (em inglês, Shuttle Radar Topography Mission). Fonte: EMBRAPA.

Tecnicamente, a Mantiqueira Clássica, Planalto de Itatiaia e Mantiqueira Norte se diferenciam por uma questão geomorfológica. Enquanto que maciços como a Serra Fina e Marins x Itaguaré, que se situam na primeira região, é caracterizada por apresentar várias montanhas alinhadas e unidas por cristas altas e afiadas, (daí o nome “Serra Fina”), a região de Itatiaia e da Serra do Papagaio são caracterizadas por apresentar grandes planaltos de onde se sobressaem elevações topográficas que sobre passam os dois mil metros. Separei Itatiaia e da Mantiqueira Norte apenas para que a lista não ficasse muita extensa, uma vez que neste Parque Nacional há muitos cumes que figuram na lista do IBGE e que precisavam de uma nota explicativa mais detalhada.

Por sua vez, o fato de existir um planalto elevado na região, suscita muitos erros de interpretação, pois qualquer elevação resulta em um cume com mais de 2 mil metros. Por este motivo, mais importante que a altitude do cume, é a altitude do colo que separa este cume de outro vizinho, pois é através da proeminência topográfica, ou seja, a diferença de altitude entre o cume e um colo, que vamos determinar se este cume é uma montanha, um morro ou até mesmo um sub cume de uma montanha adjacente.

Critérios técnicos

Na Geomorfologia, que é a ciência do relevo, considera-se montanha qualquer elevação que tenha uma proeminência topográfica superior a 300 metros. Este critério é bastante consagrado, sendo o critério adotado, por exemplo pelo dicionário Geológico Geomorfológico de José Teixeira Guerra e Sandra Cunha, que pode ser baixado gratuitamente no site do IBGE.

No entanto, em regiões com montanhas de baixa altitude, 300 metros pode ser um desnível muito grande. Ao mesmo tempo que em montanhas de grande altitude, é muito pouco. A adoção deste critério acaba sendo injusta para as montanhas brasileiras, fazendo com que vários clássicos deixassem de ser considerados montanhas (como podemos ver neste artigo e nos demais que trato do assunto).

Para ser mais justo, trouxe para o Brasil o conceito do Índice de Dominância, que foi usado para determinação das montanhas com mais 6 mil metros nos Andes, assim como na lista das montanhas com mais de 4 mil metros dos Alpes e nos 14 8 mil do Himalaia. Este conceito tem sido amplamente utilizado e no consenso, considera-se como “montanha” a que tiver o Índice superior a 7%.

Veja mais:

:: O que é o Índice de Dominância

O que é montanha na Mantiqueira Norte.

 

Pico do Garrafão 2359 metros

O Garrafão é a montanha mais alta de toda a região. Ele pertence a chamada Serra de Santo Agostinho e por isso muitas vezes é chamado por este nome. Apresenta uma bela parede frontal, bastante positiva no começo e um ressalto final mais inclinado. Porém o caminho mais fácil para chegar a seu cume é por trilha, que é bem demarcada, apesar de estar longe de ser uma montanha bem frequentada. São 764 metros de Proemiência e dominância de 32,38%.

Pico do Garrafão de Alagoa.

Pico Tamanduá Bandeira 2260 metros

Ponto mais alto da famosa travessia Baependi x Aiuruoca, o Tamanduá Bandeira é separado do Garrafão por um colo a 1676 metros de altitude que lhe confere proeminência de 584 metros e dominância de 25,84%.

Totem e Pico da Bandeira ao longe – Autor: Parofes

Mitra do Bispo 2149 metros

Montanha pouco conhecida localizada no município de Alagoa, ela é separada do maciço da Serra Negra (do Parque do Itatiaia), por um colo a 1647 metros, lhe conferindo proeminência de 502 metros e dominância de 23,36%.

Mitra do Bispo. Fonte Wikiparques.

Pico da Conquista 2073 metros

Trata-se de uma elevação localizada ao lado da Mitra do Bispo, separada dela por um colo a 1817. Pelo critério geomorfológica não seria uma montanha, pois são apenas 256 metros de proeminência, mas pela dominância sim, já que são 12,34% de dominância.

Serra da Colina 2181 metros

Montanha localizada em Itamonte é separada do maciço da Pedra Furada por um colo a 1820 metros. São 245 metros de desnível, mas 11,23% de dominância sendo considerada montanha por este critério.

Morro Verde 2011 metros

Separada da Mitra do Bispo por um colo a 1820 metros de altitude. São apenas 191 metros de proeminência, porém 9,49% suficiente para ser considerado montanha por este critério.

Alto da Paraíba 2112 metros

Montanha pouco conhecida, mas com 466 metros de proeminência e 22,06% de dominância.

Serra do Papagaio 2036 metros

Trata-se de uma elevação na parte Sul da Serra do Papagaio. É um cume que se eleva desde o planalto, próximo ao Pico do Chorão, mas mais alto do que ele. É o ponto culminante de todo o maciço que é conhecido também por ter sua testada o belo Morro do Chapéu.

Pico 2226 e 2246 metros

Estas duas montanhas sem nome (pelo menos até este momento na pesquisa), ficam ao Norte da Vila da Maromba e estão em área intangível do Parque Nacional do Itatiaia. Apesar da altitude que alcançam, são desconhecidos e hoje não é permito acessá-los. O primeiro tem proeminência de 192 metros e 8,53% de dominância, enquanto que o segundo tem 282 metros de proeminência e 12,5% de dominância.

Não são montanhas na Mantiqueira Norte

Pico do Papagaio (2105m), Morro do Tamanduá (2180m), Pico da Canjica (2267m)

Estes morros, localizados na Serra do Papagaio são unidos por uma crista elevada. Os dois primeiros apresentam proeminência de 30 e 35 metros apenas e o ultimo de 107 metros. Apesar do Papagaio ter uma face rochosa de centenas de metros em sua vertente para o vale do Matutu, sua vertente oposta é uma crista suave que se conecta com o Tamanduá Bandeira que é o ponto mais alto da Serra.

Pedra do Picu (2151m). Alto do Mirantão (2061 m), Serra da Vargem Grande (2069m), Pedra do Registro (2113), Alto dos Borges (2052m), Serra do Careta (2025m), Morro do Chapéu (2018m) e Pedra do Bispo (2040).

Algumas mais famosas outra desconhecidas. Em comum todas estas elevações apresentam pequena proeminência que não lhes conferem a possibilidade de serem consideradas montanhas em nenhum critério. Boa parte delas são morros que se elevam em meio a planaltos. Algumas outros, que por serem rochosas e apresentarem grande beleza cênica são testadas dos planaltos, conectadas por cristas altas aos seus respectivos maciços.

Conclusões

Por ser uma região de planalto, muitas das 10 montanhas com mais de 2 mil metros da Mantiqueira Norte não são tão marcantes. Pior ainda, muitas testadas que limitam os planaltos apresentam paredões rochosos que chamam mais atenção que os pontos culminantes destes extensos maciços, gerando uma confusão, pois a montanha é o conjunto, mas o cume de fato fica distante das bordas escarpadas.

De qualquer forma, o Índice de Dominância não se mostra incoerente, pelo contrário, valoriza a região que se fosse pelo critério geomorfológico, deixaria de ter muitas montanhas. O que vivenciamos neste local é a complexidade do relevo brasileiro, evoluído ao longo de milhares de anos com a sobreposição de eventos erosivos e tectônicos.

Os planaltos mencionados na região fazem parte de uma longa história erosiva e são as mais antigas feições de relevo do Brasil, a chamada Superfície Sulamericana. Este fato nos é interessante para afirmar que montanha é um conceito topográfico relacionado com a proeminência e não relacionado com forma ou evolução. Ou seja, uma montanha não precisa ter uma forma de “Pico” ou ter sido originada por processos tectônicos de convergência de placas, podendo ser também grandes planaltos reafeiçoados por epirogênese e dissecação das drenagens com a manutenção de níveis de base mais baixos, que é a gênese deste relevo montanhoso.

Por fim, fica demonstrado a importância do uso de um conceito técnico e científico para definir o que é uma montanha. Desta forma, para finalizar, deixo um apelo ao IBGE para que revise sua lista das montanhas mais altas do Brasil utilizando o critério do Índice de Dominância.

VEJA MAIS:

:: Origens e Evolução da Serra do Mar
:: Inconsistências na lista das montanhas mais altas do Brasil – AltaMontanha

 

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Sobre o autor

Pedro Hauck natural de Itatiba-SP, desde 2007 vive em Curitiba-PR onde se tornou um ilustre conhecido. É formado em Geografia pela UFPR, possui mestrado em Geografia Física pela UFPR. Atualmente é sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conhecidas lojas especializadas em montanhismo no Brasil e também é guia de montanha pela agência GenteDeMontanha, sendo instrutor de escalada pela AGUIPERJ. Ao longo de mais de 22 anos dedicados ao montanhismo, já escalou mais 100 montanhas com mais de 4 mil metros, destas, mais da metade com 6 mil metros e um 8 mil do Himalaia. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net. Siga ele no Instagram @pehauck

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