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Montanhismo arqueológico

Escalando o Llullaillaco, a montanha sagrada dos Incas


Colunista:

Apesar de ser pouco conhecida no Brasil, o Llullaillaco é uma montanha famosa no resto do mundo por ser o sítio arqueológico mais alto da terra. Quase no topo de seus 6770 metros de altitude, que a faz a sétima montanha mais alta dos Andes, foram encontradas no ano de 1999 três múmias incas em perfeito estado de preservação. Junto com elas foram achados uma centena de ornamentos que demonstram que elas foram sacrificadas em homenagem aos deuses. Este achado arqueológico mudou a história do montanhismo.

Consigo imaginar a surpresa dos jovens Bión González e Juan Harseim do Clube Andino do Chile ao pisarem no cume do Llullaillaco no dia primeiro de Dezembro de 1952, e achar, no meio da neve e rochas vulcânicas, um pedaço velho de couro. Era uma prova irrefutável que eles não foram os primeiros a estar ali. Durante a subida, os exploradores ainda puderam observar construções de pedras parecidas com “pircas” (cercas de pedra) usadas pelos indígenas, além de muita madeira que, no meio do deserto da Puna do Atacama, um dos lugares mais secos do mundo, é um material inexistente.

Grandes montanhas andinas, como o Aconcagua, haviam sido escaladas já no século XIX. Em 1897 Matthias Zurbbrigen escalou o teto das Américas e seu gigante vizinho, Tupungato. Um ano depois, Sir Martin Conway coroou o Illimani, Ancohuma e vários outros picos bolivianos. Antes deles, Humboldt explorou o vulcão Chimborazo, montanha mais alta do Equador nos princípios daquele século e seu cume foi atingido pelo talentoso alpinista inglês Edward Whymper em 1886. Estas escaladas até então eram consideradas as pioneiras no montanhismo esportivo nos Andes e deu origem ao que chamamos hoje de “Andinismo”.

No princípio do século XX, exploradores, como Walther Penck e esportistas, como a equipe de alpinistas poloneses liderada por Justyn Wojsznis e Jan Szczepanski, foram escalando diversas outras montanhas de 6 mil metros, como o Mercedário, Ojos del Salado, Incahuasi, Pissis, Três Cruces e outros que estão entre os top 15 mais altos dos Andes. No entanto, foi somente no começo da década de 1950, com o início da construção da ferrovia Salta/Antofagasta que o Llullaillaco foi deixando de ser desconhecida e distante, uma grande contradição, pois nesta época as primeiras montanhas com 8 mil metros do Himalaia já estavam sendo escalados.

O feito dos chilenos circulou no meio exploratório e montanhístico e não tardou para que curiosos descobrissem as origens das construções rudimentares relatadas pelos montanhistas. Foi então que em 1953, no mesmo ano em que o homem pisou no Everest pela primeira vez, que o ex. oficial da Luftwaffe, Hans-Ulrich Rudel descobriu muitos outros indícios de escaladas pré colombianas, mostrando que os Incas escalavam o Llullaillaco com bastante frequência. Os dados provocaram muitas discussões, pois mostraram que não foram os europeus que inventaram o montanhismo.

Fiquei sabendo do Llullaillaco no ano de 2002. Naquela época eu acabara de escalar o Aconcagua e estava ansioso por escalar novas montanhas de 6 mil metros nos Andes. No entanto, a distância desta montanha e a grande dificuldade de chegar em sua base me manteve distante dela por 10 anos. Foi apenas em Dezembro de 2012 que eu vi o Llullaillaco pela primeira vez durante a expedição Mundo Andino com Waldemar Niclevicz. Quando ascendíamos o vulcão Antofalla, outro 6 mil gigantesco, também escalado pelos Incas, há cerca de 80 quilômetros ao sul do Llulla.

Mapa de localização das montanhas de Salta


Aquele gigante me chamou a atenção de imediato. O Waldemar, que havia escalado a montanha em 2004, me contou como foi sua ascensão, que o havia feito sozinho desde o Chile, contou-me o que havia visto e pensado sobre aquele enigmático vulcão isolado na fronteira chileno argentina.  Ao chegarmos no cume do Antofalla, me dei conta de uma enorme plataforma retangular aplainada e circundada por pedras empilhadas, formando uma espécie de altar que me levou a discutir a motivação dos porquês e como os Incas escalavam montanhas.

Logo no retorno desta expedição, fiquei com esta montanha na cabeça e durante um jantar de confraternização na casa do meu amigo Luiz Antoniutti, junto com o Julio Fiori, Hilton Benke e outros figuras, lancei a idéia, entre uma taça de vinho e outra, de uma expedição para escalar o Llullaillaco. Eu sabia o caminho, conhecia a região, faltava o veículo 4x4 para chegar lá. A conversa foi amadurecendo durante o ano de 2013, até que, depois do Natal daquele ano, ela finalmente saiu do papel.

Cerca de 60 anos antes, várias expedições científicas dão cabo no vulcão Llullaillaco. Em 1955, os pesquisadores Jossin e Ravizza encontraram a 6300 metros, vigas de madeira, como também uma construção em ruinas a 6650 metros. Em 1956, numa altitude de 6600m, o arqueólogo Matthias Rebitsch desenterrou cerâmica e restos de milho. Em 1961, Rebitsch e um companheiro retornou à montanha e escavaram outras construções que pareciam ser uma aldeia.

Nos anos seguintes, os descobrimentos continuaram periodicamente ao longo das ladeiras de toda montanha. O arqueólogo americano Johan Reinhard, que havia estudado e percorrido minuciosamente o vulcão durante a década de 1980, elaborou a hipótese da possível existência de oferendas humanas no cume do Llullaillaco. Tal suposição foi confirmada em Março de 1999, quando uma equipe liderada por ele e financiada pela National Geographic Society, localizou quase no topo do vulcão três corpos de crianças congeladas com belíssimo enxoval funerário que datavam de mais de 500 anos. Os achados correspondiam a uma adolescente de 15 anos, que ficou conhecida como “La Doncelita”, uma menina de aproximadamente 6 anos “la Niña del Rayo”, que recebeu este nome pois ao longo dos séculos foi vítima de 2 raios no rosto e um garoto de 7 anos.

No final de 2013, o mais jovem integrante da minha expedição, tinha apenas a idade da criança mais velha achada no Llullaillaco, Luca Antoniutti, quem eu conheci há 7 anos, no dia que o Hilton quase derrubou a agarra chave da via Vento Ventania, no Morro do Canal em cima dele. Luca é o filho mais novo do Luiz, o único que ao longo do ano se manteve animado em fazer a expedição.

Foi com esta pequena equipe, a bordo da Pajero do Luiz, que cruzamos o norte da Argentina. A pressa só não era maior que o calor que toma conta de tudo nesta região, uma planície semi árida interminável e em graça. A monotonia só é quebrada após a cidade de Salta, quando descortina-se a cordilheira dos Andes. De princípio a estrada que sobe a grande cordilheira é um oásis entre as duas regiões secas, a Puna (que e Quechua significa altura) e o Chaco. Certamente é deste oásis entre desertos o local de proveniência das madeiras encontradas no cume das secas montanhas da Puna. É na Puna que se concentram a maioria das montanhas de 6 mil metros dos Andes e nosso destino.

Em apenas duas noites de viagem já estávamos dormindo na altitude de 3770 metros de San Antonio de Los Cobres.  Nossa intenção era aclimatar na região, ou seja, se acostumar com a altitude. Para isso passamos dois dias vagando pelo deserto, visitando sítios arqueológicos, como as ruínas de Tastil, civilização pré incaica que viveu ali por mais de mil anos e que foram “colonizados” pelos Incas próximo ao ano de 1450.

Quando falamos em Incas, estamos falando no povo de etnia Quéchua que são originais de Cuzco no Peru. Esta civilização se aproveitou dos avanços tecnológicos de outras civilizações andinas, aglutinando tudo o que de bom que outros povos haviam descoberto em sua própria cultura, como as construções de pedra de Chavín, técnicas de irrigação de Tiwanaku e outras. De inovação eles tiveram as técnicas militares, que os possibilitaram conquistar todos estes povos e manter, mesmo que fosse por pouco tempo, o maior império do continente americano, indo da Colômbia até a região de Mendoza na Argentina, um grande território chamado de Tawantisuyo “o país das quatro regiões”, onde as trilhas eram o principal meio de comunicação. A mais importante delas, que formava uma espinha dorsal de Norte a Sul, se chamava de Capac Ñan e passava por ali, próximo ao Llullaillaco.

Aproveitando uma janela de tempo, fomos em direção ao Nevado Quewar, com a intenção de fazer cume em 3 dias. No caminho encontramos uma caminhonete abandonada com a chave na ignição no meio da estrada poeirenta. O dono certamente deixou o veículo sem gasolina e saiu à pé na busca do precioso combustível. Isso nos lembrou de como é perigoso transitar por esta região selvagem, onde não existe infra estrutura alguma.

Chegando em Santa Rosa de los Pastos Largos, base do Quewar, me dei conta que seria impossível, ou pelo menos seria uma má idéia subir a montanha com aquele tempo. Decidimos optar pelo plano B, que consistia fazer a aclimatação no Nevado Macón e Vulcão Socompa. Um pneu furado, ou melhor arregaçado, no entanto, nos fez desistir da idéia e aclimatar em montanhas mais populares e manjadas no lado chileno, em San Pedro de Atacama.

Atravessando o deserto da Puna, onde a média de altitude é de 4 mil metros, nos demos conta de como a água ali é rara. Os Incas há 500 anos sabiam da importância deste recurso e buscavam rotas que passavam de tempos em tempos por um lugar onde pudessem abastecer suas vasilhas de barro e seus animais pudessem pastar. Na busca destas paragens, chamadas de “vegas”, eles encontraram o “Llullaillaco” que em Quechua significa “água falsa”, talvezuma alusão, aos enormes salares que existem aos montes na região. Será que o branco do sal poderia ser neve?

Paramos na fronteira chilena e fomos convocados a fazer uma inspeção sanitária. No regresso, notamos que a pneu traseiro da esquerda estava vazio. Conseguimos furar dois pneus em um só dia! A sorte, foi acontecer num dos pouco locais onde havia gente, e carona nesta insólita região. Fomos parar no Chile dentro do camburão do Carabineiros.

Quando estávamos na estrada a caminho de San Pedro, junto dos policiais, fomos atender uma ocorrência. Um carro em “pane” disse o carabineiro. Num determinado momento, os policiais deixam a estrada principal e começam a ir em direção a um salar, de onde aparece um sujeito com mãos abertas que aparentava estar desesperado. Nos aproximamos do sujeito, que ofegante vem reportar o ocorrido ao oficial. O sotaque denunciava e em português eu perguntei: _ De onde você é?

Era o Ricardo Rapozo, fotógrafo natural de Belém, que mora em São Paulo. Tirando foto de um Flamingo ele acabou atolando o carro no barro feito de sal ao lado do lago. Desatolamos o veículo dele com facilidade e conseguimos desta forma nossa carona do dia seguinte para conseguir recuperar o carro, além de uma ótima e divertida companhia naquele réveillon.

:: Continua na parte 2:
 




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