A Redescoberta Oficial das Nossas Montanhas e o novo mapa do IBGE

0

A recente publicação da nova base cartográfica e compartimentação de relevo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) trouxe à tona um debate que há décadas parecia adormecido — ou mal resolvido — nos bancos escolares: afinal, o Brasil tem montanhas? A formalização cartográfica apresentada pelo órgão federal não surge do acaso; ela é o resultado direto do amadurecimento e convencionamento taxonômico liderado pela União da Geomorfologia Brasileira (UGB), cujo aceite e incorporação institucional pelo IBGE consagram, em documento oficial, o que a geomorfologia de campo sempre atestou.

Novo mapa do relevo brasileiro aonde figuram montanhas em 20 estados. Fonte IBGE.

A fundamentação desse consenso encontra-se documentada e publicada nas diretrizes e artigos da Revista Brasileira de Geomorfologia (RBG) — periódico da UGB —, onde foram sedimentadas as propostas metodológicas do Comitê de Taxonomia do Relevo e as bases do Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR). A padronização adotada pelo IBGE ancora-se diretamente nesses volumes técnicos da UGB, formalizando critérios morfométricos e genéticos de compartimentação.

:: LEIA NA ÍNTEGRA: O Estado da Arte do Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo

Da UNESP à UFPR: A Escola Clássica do Desnível Topográfico

Para quem viveu a formação acadêmica na geografia física, esse “reconhecimento” oficial não traz nenhuma novidade conceitual. Desde 2002, quando cursei a disciplina de Geomorfologia na UNESP Rio Claro, tive o privilégio de ser aluno do grande Francisco Ladeira (hoje docente na Unicamp). O “Chico Ladeira” já nos ensinava de maneira contundente que o Brasil sempre teve montanhas. Naquela época, ele já apresentava o clássico critério do desnível topográfico — a tradicional regra dos 300 metros de desnível, conceito antigo e consagrado inclusive no clássico Dicionário Geológico-Geomorfológico de Antonio Teixeira Guerra.

Essa bagagem teórica e de campo, consolidada tanto nas aulas com Francisco Ladeira e Adler Guilherme Viadana, meu orientador da iniciação científica na UNESP, quanto no convívio direto com mestres como Eduardo Salamuni e Everton Passos na Universidade Federal do Paraná (UFPR), bebeu da evolução clássica do pensamento geomorfológico nacional, celebrizada nas obras seminais de Aziz Nacib Ab’Sáber e Fernando Flávio Marques de Almeida.

Montanha é, essencialmente, forma e desnível topográfico em relação ao nível de base local, modelada por processos combinados:

  1. Tectonismo: Embora intraplaca e de baixa intensidade relativa, não é inexistente. O relevo brasileiro foi fortemente reafeiçoado por tectonismo cenozoico recente (com menos de 20 milhões de anos), tema sobre o qual temos diversos artigos publicados a partir de pesquisas na UFPR demonstrando como falhas e reativações tectônicas recentes controlaram escarpas e blocos elevados.

  2. Epirogênese e Isostasia: Soerguimentos regionais lentos induzidos por compensação isostática ao longo do Terciário e Quaternário.

  3. Erosão Diferencial e Pediplanação: Processos erosivos de longo curso sobre litologias contrastantes que esculpiram escarpas monumentais, cristas agudas e inselbergs.

O Limite do Critério Fixo de 300 Metros e o Índice de Dominância

Apesar de a convenção dos 300 metros de desnível ter sido um avanço histórico para romper com o mito do “Brasil sem montanhas”, ela carrega uma limitação geométrica severa: a rigidez de um valor absoluto.

O pesquisador e estatístico alemão Eberhard Jurgalski introduziu na orografia mundial o conceito de Índice de Dominância (relação percentual entre a proeminência topográfica e a altitude absoluta do cume). Tenho abordado amplamente essa métrica em artigos e vídeos, pois ela oferece um critério infinitamente mais justo e matematicamente refinado:

Ao adotar cegamente uma régua estática de 300 metros de desnível absoluto, comete-se a aberração de desclassificar montanhas legítimas e imponentes situadas em relevos de altitudes médias ou serras fortemente dissecadas. Sob essa régua inflexível, ícones como o Pico do Itaguaré (na Mantiqueira) deixariam de ser classificados como montanha, da mesma forma que gigantes da Serra do Mar paranaense como o Itapiroca e até mesmo o Caratuva — a segunda maior montanha do Sul do país — perderiam sua condição orográfica. Uma contradição técnica inaceitável para quem pisa no terreno.

Pico do Itaguaré. Pelo novo conceito do IBGE, não seria uma montanha. Foto Pedro Hauck

O Pioneirismo da Lista Real: Por que o IBGE Precisa Refazer a Dele

O que há de novo nesse anúncio governamental é apenas o mapa oficial desenhado no papel. Os cumes, as cristas e os vales continuam nos mesmos lugares que conhecemos, estudamos e escalamos há décadas.

Mais do que isso: enquanto o poder público celebra agora a inserção do relevo montanhoso na cartografia geral, a listagem oficial de elevações do próprio IBGE permanece metodologicamente defasada. Trata-se de uma compilação de cumes mais altos, e não de montanhas — misturando cumes secundários, ombros de montanhas e agulhas subsidiárias sem critério de corte orográfico rigoroso, contradizendo a própria regra de desnível que eles mesmos passaram a adotar.

Essa incoerência já foi dissecada e apontada detalhadamente em:

Já me adiantei a essa discussão há anos, aplicando o Índice de Dominância de Jurgalski e critérios de proeminência para catalogar com certa precisão (erro vertical de +- 10m), as verdadeiras montanhas com mais de 2.000 metros de altitude em cada unidade federativa do país. Essa metodologia permitiu responder de forma objetiva aos dilemas orográficos regionais que o mapeamento tradicional nunca solucionou:

O IBGE deu um passo indispensável e bem-vindo ao colocar as montanhas no mapa do Brasil sob o aval da UGB. O próximo passo obrigatório é depurar e auditar a sua própria lista oficial de cumes, abandonando tabelas herdeiras de medições nominais e abraçando a métrica da dominância orográfica. O relevo real já foi mapeado em campo; resta à burocracia alcançar a geografia.

Já dei minha contribuição e criei a lista com as 20 montanhas mais altas do Brasil que você poderá ver e me ajudar a divulgar no link abaixo:

:: LISTA DAS 20 MONTANHAS MAIS ALTAS DO BRASIL PELO CONCEITO DE ÍNDICE DE DOMINÂCIA.

Compartilhar

Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

Deixe seu comentário